segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Histórico escolar: só aceitamos trabalho fácil

Entramos na sala da coordenadora com aquele familiar frio desagradável no estômago. Do outro lado da mesa, uma gordinha mirava através das grossas lentes dos óculos: toda flácida, menos o olhar raivoso. Meu pavor não vinha daquele olhar, repleto de frustração, mas sim do medo de que algum dia, mais exausto ainda do que nós, meu filho simplesmente desistisse de continuar estudando.

Mais tarde, soube que ela foi demitida, deve hoje despejar sua ira nos pobres filhos ou incautos cidadãos que porventura tenham o azar de cruzar seu caminho. Mas a nossa saga continuou: o Danilo foi expulso 4 vezes, de 3 colégios, ao longo desta acidentada carreira escolar. Foi reprovado e convidado a se retirar da Móbile, onde cresceu e no ano em que perdeu a avó e o avô depois de longa doença, pois a escola resolveu fazer um reposicionamento mercadológico (!). A primeira expulsão do Consa foi revertida pela minhas súplicas fervorosas à diretora, que teve o bom senso de entender que a última semana de novembro não seria a época ideal para uma transferência - e um mínimo ato de indisciplina poderia se transformar numa condenação perpétua.(!!) Em março do ano seguinte, foi expulso sem súplicas de minha parte. Na primeira semana do ano seguinte, foi expulso do Objetivo (!!!!). Motivo: falou para uma professora que a aula dela dava sono.

Se a essência do trabalho bem feito é o desafio, as escolas e seus coordenadores estão dando a pior das lições: só aceitam tarefa fácil. Sim, pois meu filho é um rapaz indisciplinado, questionador, inteligentissimo, de excelente caráter e ótima índole. Talvez as mães dos piores bandidos achem isso, eu sei, mas vejamos: o Danilo cuidava ferozmente de seus coleguinhas portadores de Sindrome de Down ou autistas, na Ânima, a maravilhos pré-escola onde aprendeu a respeitar as diferenças - não tratando todo mundo de forma igual, mas sim dispensando cuidados extras a quem deles precisava. Eu não consigo carregar uma sacola por dez metros no meu bairro, pois todos os adolescentes, porteiros de prédios e frequentadores do bairro em geral me conhecem com 'a mãe do corinthiano', que é simpático e solícito com todos.

Eu escondia as expulsões, quando possível, com medo de criar um estigma. Hoje tenho orgulho de contar que ele escolheu um curso universitário com a mais sensata das considerações, e foi aprovado antes sequer de concluir o ensimo médio (no Octagon, a princípio escolhido como uma escola pouco exigente, mas que se revelou aquela que conseguiu conduzir um adolescente considerado problemático pelas outras). O Danilo foi aprovado entre os primeiros lugares em Engenharia de Petróleo na UniSanta, em Santos. Apesar dos esforços 'didáticos' das 'instituições de ensino' que querem preencher suas planilhas de resultados com nomes de alunos aprovados e suas planilhas financeiras com números positivos.