segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mércia, Eliza, fulana e sicranas: Santa Teresa é aqui

O romance 2666 do chileno Roberto Bolanõs vem sendo citado por diversos apaixonados por literatura (me incluindo nesta) como o melhor da década. Ao longo das primeiras três - das cinco - partes, aparecem diversas referências sobre assassinatos de mulheres na fronteiriça cidade mexicana de Santa Teresa. Na quarta parte, sobre os assassinatos em si, um fato: as mortes não são fruto da ação de um serial killer, ou ao menos não apenas isso.

Matam-se mulheres como se eliminam moscas.

Nada mais natural do que matar insetos chatos que estão incomodando. Eu, que não tenho nada contra as formiguinhas, não hesito em afogar algumas se estiverem contaminando potes de alimentos na minha cozinha. Mulheres são da mesma ordem de prestígio de bolsas falsificadas, camisas de futebol, pacotes de 5 meias pelo preço de 4 e capinhas de celular vagabundas. Basta passar em frente de uma barraquinha de camelô, ou de uma banca de revistas onde estão exibidos centenas de objetos, pernas abertas e caras lascivas.


A falta de controle gera frustração; e quem se frustra com insignificâncias não resiste a massacrá-las. Simples assim. Mércia, Eliza, e outras: o que têm em comum é que não foram boazinhas e passivas. Frustraram. E como não têm a menor importância, podem ser facilmente esmagadas.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O ótimo exemplo

Existe coisa mais ridícula do que mulher que esconde a idade? Adorei o anúncio das Havaianas com a Luiza Brunet: aquela mulher linda e maravilhosa declarando orgulhosamente que nasceu em 1962. Hum...deixa eu ver...vou fazer as contas de quantos anos ela tem...pensando bem: idade não é aquilo que aparece no documento, é alguma coisa que fica entre a postura e a visão de mundo. Aliás, recomendo fortemente a leitura da coluna do Daniel Piza, no estadão do último domingo:

Tempo tempo tempo
Em dia de aniversário a gente pode quase tudo: pode ganhar café na cama, sair mais cedo do trabalho, pegar a primeira fatia do bolo. Ou pode até pensar como aquela personagem da peça Três Mulheres Altas, de Edward Albee, e dizer que nesta idade estamos entre a imaturidade e a decadência, num platô de cima do qual podemos ver tudo – e quem viu Nathalia Timberg rugindo essa fala não esquece jamais. Mas a gente também pode acreditar nessas classificações da psicologia e matutar sobre a meia-idade, um termo que sugere outros igualmente melancólicos: meia-boca, meia-bomba, meia-sola… Uma vez escutei no rádio um desses sujeitos que dão conselhos para a vida profissional desaconselhando um ouvinte de 40 anos a mudar de carreira, na linha “agora é tarde, amigo” (ou então, “a vida começa aos 40: começa a terminar”). E isso numa época em que as sociedades envelhecem e a expectativa de vida não para de subir.


A sensação de idade tem a ver com o modo como se usa o tempo. A pergunta que mais me fazem, por sinal, é como arranjo tanto tempo para ler, escrever, etc. Menosprezam o fato de que esse é meu trabalho, ou seja, que as oito horas que passam trabalhando são, para mim, oito horas que posso passar lendo e escrevendo. É claro que sinto falta de tempo: queria jogar mais futebol, morar um período fora, retomar minhas aulas de alemão e piano, escrever um romance. Mais falta ainda sinto do que não pude ser: em outra encarnação, não tenho dúvida, tentaria ser cientista (biólogo, neurologista, físico?). Mas não acredito em encarnação e acho que tenho tempo para realizar boa parte daquelas vontades. Se posso repetir o chavão do “tudo passa tão rápido”, digo com mais convicção que, até aqui, eu soube aproveitar bastante bem. Corri atrás das coisas; não fiquei esperando que me dessem ou me deixassem.

 
Para quem ama a mulher que tem e o trabalho que faz – duas coisas raras, ainda mais simultâneas –, a vida nunca parece que está sendo desperdiçada. Os erros do passado pesam, como errar de faculdade e casar muito cedo, mas o problema não é errar, é demorar para reconhecê-los; foi por isso que dei a volta por cima em ambos. Aqui vem um ponto importante. Essas duas decisões, ou melhor, essas duas “correções de rota” aconteceram contra a opinião da maioria dos que me cercam – inclusive os amigos mais queridos, com as intenções mais altruístas. Ouvir a voz própria, sabendo arcar com as consequências, é fundamental nesses assuntos. A cultura latina, a meu ver, põe ênfase excessiva nos laços pessoais; por medo de magoar os outros, todos terminam muito mais magoados do que se tivessem uma conversa franca, educada, mas sem concessões. As questões existem em si mesmas, não são apenas projeções de nossos temperamentos e interesses, e a objetividade possível deve ser buscada.

 
Atribuo a isso o fato de que me dizem indiferente demais ao que os outros pensam de mim. Não é verdade. Sei meus defeitos, mas sei também que as críticas nem sempre chegam com as palavras adequadas – ser petulante não é ser arrogante, e gostar de mulheres é o contrário de gostar de enganá-las – ou com boa-fé. Quase 20 anos de prática me ensinaram a identificar quando uma resenha negativa faz questão, por exemplo, de identificar se você é jornalista, paulista, jovem… E sei que é minha cabeça que deito no travesseiro, não a dos outros. A propósito, muitas pessoas de poder na cultura e na política brasileira – produtos e produtores da mentalidade oligárquica que ainda nos governa – têm o péssimo costume de imitar a rainha de Alice e pedir as cabeças dos que as contestam. Conseguiram aqui e ali, mas sobrevivi a todos.

 
Qualquer um que trabalhe em comunicação, por supuesto, quer ser bem entendido. Mas não existe comunicação sem ruído. Quando comecei, me diziam que os leitores não querem saber de muito senso crítico e de assuntos supostamente sérios. A maioria só quer saber de celebridades e diversões, e mesmo os que se interessam pelos temas leem com desatenção e palpitam com furor. (Até familiares me perguntam por que não escrevo um “best-seller”, como se fosse uma fórmula e, mais importante, como se eu quisesse.) Os que não me conhecem, portanto, imaginam que sou rabugento, que não dou gargalhada vendo Didi na TV, que não sei chutar bola, etc. Estão acostumados com “intelectuais” que não sabem dirigir, só escutam música erudita e olham os outros de cima para baixo. Ou com jornalistas que não falam mal da imprensa, paulistas que não falam mal de São Paulo (afora trânsito e violência) e jovens que acham que o mundo começou quando nasceram.

 
Me divirto muito com tudo isso e, principalmente, me sinto satisfeito quando me dizem que leram livros como Dois Irmãos, de Milton Hatoum, Desonra, de Coetzee, Reparação, de Ian McEwan, ou que “redescobriram” Machado porque instigados pelo que comentei. Ou que gostam justamente da mistureba de assuntos que faço aqui. Todo convite que recebi foi porque leram o que escrevi, não por indicação ou “amizade”. E estou certo de que, apesar do que sempre ouço, ou do que leio na revista Brasileiros, muitos percebem que sou diferente de ídolos de juventude como Paulo Francis e H.L. Mencken. Gosto de futebol, MPB e Obama, gosto de pesquisar e não exagerar, sou ateu sem culpa, não sou preconceituoso nem engraçado. Mas aprendi com Francis e Mencken a tratar a cultura como prazer e a dizer o que penso sem medo de patrulha.

 
Essa curiosidade sem ansiedade, essa inquietude sem amargura, é um dos prazeres da maturidade, para os quais, talvez porque também raros, não tinham me alertado – e felizmente, pois a vantagem de não ser muito otimista é que as boas notícias são mais bem desfrutadas… Quando completou 80 anos, Bernard Shaw começou uma palestra assim: “Quando eu era mais novo, diziam que quando chegasse aos 80 iria ver. Bem, cheguei aos 80 e não vejo nada.” O discurso de autoridade pela idade é ridículo. Do alto do platô vemos muita coisa, não tudo, e vemos também que as rugas e as dobras se acumulam. Mas o que se vive é o presente, e presente melhor o tempo não nos dá. O tempo não voa nem se arrasta: é o indivíduo que escolhe seguir em pé. Agora, ao café e ao bolo.

terça-feira, 2 de março de 2010

A patricinha de Beverly Hills desperta sexismo na parte de baixo do Equador

Estava saindo de uma farmácia quando vi o cartaz de uma marca de lâmina de barbear no qual duas ou três moças se esfregam sinuosa e provocantemente em um escanhoado rapaz, o qual parecia até bem acostumado com essas coisas.No jornal, um anúncio declara que a personagem de um programa de TV é tão descolada que até tem dois namorados. Como será que se sente um pai de meninas?


E as mulheres, afinal? Nâo será esta uma das causas da propagada competição feminina? A mídia afirma que o mercado está fraco; melhor se conformar em fazer parte de um harém - se necessário for, envenenar uma ou duas concorrentes...


Neste cenário chega a ser ridículo discutir a campanha com a Paris Hilton. Só quem nunca passou em frente de uma banca de revistas pode ter ainda alguma ilusão em combater o sexismo neste país. Cerveja e bunda, cerveja e peito de silicone...eu só acho que a patricinha de Beverly Hills não combina em nada com a brasilidad da nossa carnavalesca bebida: lambisgóia loira, sem curvas nem derrière, simplesmente não orna. Para isso os anúncios de cerveja, e de quaisquer outros produtos, exibem preferencialmente bundas bronzeadas.

Vamos falar a sério sobre sexismo? Então: acabamos com o Big Brother agora, punimos passantes que se acham no direito de fazer comentários impertinentes a todas as mulheres que caminham pelas ruas, passemos pente fino em todas as peças de mídia e não na pobre menina rica - ninguém está dando a mínima para ela.

Queria evitar a grosseria mas, neste caso, literalmente o buraco é mais em baixo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Histórico escolar: só aceitamos trabalho fácil

Entramos na sala da coordenadora com aquele familiar frio desagradável no estômago. Do outro lado da mesa, uma gordinha mirava através das grossas lentes dos óculos: toda flácida, menos o olhar raivoso. Meu pavor não vinha daquele olhar, repleto de frustração, mas sim do medo de que algum dia, mais exausto ainda do que nós, meu filho simplesmente desistisse de continuar estudando.

Mais tarde, soube que ela foi demitida, deve hoje despejar sua ira nos pobres filhos ou incautos cidadãos que porventura tenham o azar de cruzar seu caminho. Mas a nossa saga continuou: o Danilo foi expulso 4 vezes, de 3 colégios, ao longo desta acidentada carreira escolar. Foi reprovado e convidado a se retirar da Móbile, onde cresceu e no ano em que perdeu a avó e o avô depois de longa doença, pois a escola resolveu fazer um reposicionamento mercadológico (!). A primeira expulsão do Consa foi revertida pela minhas súplicas fervorosas à diretora, que teve o bom senso de entender que a última semana de novembro não seria a época ideal para uma transferência - e um mínimo ato de indisciplina poderia se transformar numa condenação perpétua.(!!) Em março do ano seguinte, foi expulso sem súplicas de minha parte. Na primeira semana do ano seguinte, foi expulso do Objetivo (!!!!). Motivo: falou para uma professora que a aula dela dava sono.

Se a essência do trabalho bem feito é o desafio, as escolas e seus coordenadores estão dando a pior das lições: só aceitam tarefa fácil. Sim, pois meu filho é um rapaz indisciplinado, questionador, inteligentissimo, de excelente caráter e ótima índole. Talvez as mães dos piores bandidos achem isso, eu sei, mas vejamos: o Danilo cuidava ferozmente de seus coleguinhas portadores de Sindrome de Down ou autistas, na Ânima, a maravilhos pré-escola onde aprendeu a respeitar as diferenças - não tratando todo mundo de forma igual, mas sim dispensando cuidados extras a quem deles precisava. Eu não consigo carregar uma sacola por dez metros no meu bairro, pois todos os adolescentes, porteiros de prédios e frequentadores do bairro em geral me conhecem com 'a mãe do corinthiano', que é simpático e solícito com todos.

Eu escondia as expulsões, quando possível, com medo de criar um estigma. Hoje tenho orgulho de contar que ele escolheu um curso universitário com a mais sensata das considerações, e foi aprovado antes sequer de concluir o ensimo médio (no Octagon, a princípio escolhido como uma escola pouco exigente, mas que se revelou aquela que conseguiu conduzir um adolescente considerado problemático pelas outras). O Danilo foi aprovado entre os primeiros lugares em Engenharia de Petróleo na UniSanta, em Santos. Apesar dos esforços 'didáticos' das 'instituições de ensino' que querem preencher suas planilhas de resultados com nomes de alunos aprovados e suas planilhas financeiras com números positivos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Clarice, uma biografia meio esquisita

A biografia Clarice poderia ser tão boa! Mas o autor várias vezes cita um trecho escrito por ela e, poucas páginas adiante, repete tudo de novo outra vez...uma chatice. Em alguns momentos ele se põe a divagar sobre o que ela sentiria ou acharia: perda de tempo e energia. Em outros, faz ilações descabidas, como exemplo: o nome perdido dela. O que nós judeus chamamos de ´nome iídiche´, que seria aquele de batismo. O meu é Mirel, o dela era Chaya, tenho tios Salomea e Marek que mudaram para Sarita e Mário ao chegarem aqui no Brasil and so what? isso não muda nada, a questão do desgarrramento e do semitismo suplanta dez milhões de vezes essa discussão aí. Parece que o autor resolveu escrever mais de 500 páginas e o esforço dele foi este, o de preencher as tantas páginas. Para uma autora que falava de dez sentimentos com duas palavras, merecia uma bio que não precisasse de cem palavras para um quarto de sentimento.

E de repente ela tem câncer e daí ela morre. Subitamente, sem uma conversa sobre o assunto, sem um desabafo com uma amiga. Ruy Castro faria melhor: faltou sabor, ginga, brasilidade profundidade. Acaba que ela parece uma louca ciclotímica e não uma mulher com angústias profundas e belezas na mesma medida.