segunda-feira, 5 de setembro de 2016

PorQueNão?


Eu começo a minha colaboração no PorQueNão? contando que sou "mais velha". Participar de um coletivo formado por jovens envolve dois riscos: um é querer parecer jovial e fingir ter a idade da galera, o que é ineficaz e patético. O outro é querer dar uma de sábia da montanha, estilo "meninos, eu vi". Antes de cair em alguma das tentações, melhor eu confessar logo: aos 52 anos, só sei que nada sei. Para cada resposta que encontrei, surgiram duas novas perguntas. 

Perdão! Desculpe eu dizer isso assim, sei que seria muito mais legal falar que um belo dia, depois de 50 anos de incertezas, a gente acorda e pronto, sabe tudo. Agora é só relaxar e viver no conforto. Meninas, meninos, meninxs: zona de conforto é o túmulo. Até chegar lá, além de batalhar para manter esta data longe, há que se esforçar dia e noite para conhecer e melhorar. Só o que posso dizer é que ao longo de mais de meio século eu errei muito. E, como não me deixei abater por ter errado tanto, aprendi a errar melhor. O consolo é que ao errar tantas vezes, perde-se o medo de errar e portanto ganha-se coragem. Ela, a coragem, é o motor da vida, não tem como desbravar o mundo e se acomodar ao mesmo tempo. E por falar em tempo:

A passagem do tempo é uma coisa muito louca. 

Eu era menina quando apareceu a TV a cores, e foi uma revolução. Minha mãe, que nasceu 22 anos antes de mim, foi a primeira do bairro a ter geladeira em casa. Na época, meu avô reuniu a garotada para dizer que a brincadeira mais óbvia (se esconder dentro do refrigerador, que era grande como um armário) não era permitida. O motivo é que muitas crianças norte-americanas desapareceram, na época, e foram encontradas mortas, dias mais tarde, trancadas pelo lado de dentro das geladeiras. Notem: dias depois - isso porque as pessoas não guardavam nada, na prática, dentro das geladeiras, visto que não existiam supermercados e os vendedores - leiteiros, padeiros, verdureiros - passavam anunciando suas mercadorias em charretes. A comida vinha direto ao seu lar, era só prestar atenção no sininho. Detalhe: a casa da minha mãe era na avenida Paulista. 

O ponto aqui é: meu avô chamou as crianças para explicar que a geladeira não abria pelo lado de dentro porque reunir as pessoas, formar uma roda e conversar era o único jeito de espalhar as novidades. Os jornais impressos no estrangeiro demoravam dias, ou semanas, sei lá, para chegar aqui. O noticiário filmado era aquele que passava antes da sessão, nos cinemas. E havia o rádio, que era a forma mais veloz de difusão de informações, mas suponho que mais voltada para os adultos. A infância ainda não tinha entrado na moda naquela época, e a adolescência então, nem se fala.

Parece outra vida, né? Mas não tem nem 70 anos, sequer o tempo de ameaçar piscar os olhos, considerando em uma perspectiva da jornada humana sobre a terra. A velocidade da difusão da notícia mudou de uma forma espantosa. Em 6 de julho deste ano de 2016, praticamente ninguém tinha ouvido falar de Pokémon Go. Em 12 de julho de 2016, o aplicativo havia sido baixado por mais de 20 milhões de pessoas. As mudanças que demoravam 70 anos para se consolidar, hoje não levam 7 dias. Mas um resfriado, ou ferida, ou coração partido, continuam demorando mais de uma semana para passar. 

Enfim, a medida da vida é o tempo. Quantos anos você tem? A quantas horas está esperando? Quanto tempo vai demorar para chegar lá? Como eu disse no começo, não posso cair na tentação de ficar passando conselho. Mas, quem resiste a um bom clichê? O tempo voa. Um dia desses você vai acordar e vai ter 52 anos (Juro! Pode acreditar!) E para onde foi todo esse tempo? Não desperdice, aproveite cada segundo, dez minutos gastos ouvindo uma bobagem qualquer (ou caçando Pokémons) podem ser o bem mais precioso de todos, lá no (breve) futuro. 


Carma Instantâneo

O dia amanhece como qualquer outro. Mas hoje será diferente de todos os outros. Foram vários dias dormindo em barracas, na terra fria e suja, ao relento. As latas de comida que trouxeram estão acabando. É hoje. Chegou o dia de atravessar a fronteira. Dia de começar uma nova vida.
***

Pequeno, loiro e de olhos azuis. Era fácil para ele escapar pelo bueiro, andar pelas frestas, ir e voltar. Ir, levando sua fome imensa, seu medo de tamanho ainda maior; e voltar trazendo mantimentos: repolho, batata, pão. Carne, eventualmente, mas não de porco, que eles não poderiam comer. Tio Mikael parecia um pequeno polaco, se não se olhasse nos olhos; o pavor e o cansaço logo denunciariam que não era uma criança qualquer.

Enquanto aguardo, penso nele: mais semelhanças do que diferenças. Ha! Fácil falar! Fácil: andar pelos canos de esgoto. Aqui estou eu, três dias longe de casa e aborrecida com tudo: mosquitos, calor, e depois o frio, suor - o meu, o cheiro dos outros que estão perto demais. Gente perto demais: é isto o que mais me incomoda.

Meu apartamento é pequeno e simples. Aos domingos, saio bem cedo e compro os jornais. Também pão e mel, e na volta faço aquilo que não consigo fazer durante toda a semana: desfruto do tempo. O luxo maior é este, não é dinheiro ou uma casa maior. É o tempo só meu, sossegada, comendo minha torrada e tomando meu café quentinho, virando devagar as páginas do jornal; meu ritmo, no meu espaço. É tão aconchegante, o meu apartamento, que três dias fora de casa parecem uma tortura. 

Por isto, fico observando aqui este calor danado, sendo que de manhã estava um frio desagradável, e o vento trazendo este cheiro de centenas de pessoas que estão há dias sem tomar banho… o que eu quero dizer é que o meu conforto normal - meu Deus, eu disse normal! - o conforto com o qual, por inúmeras razões sociais, históricas e econômicas, eu estou habituada, me faz pensar e tentar me colocar no lugar do meu tio Mikael. Ou de um destes refugiados esperando do outro lado da fronteira. Esperando o que, não entendo exatamente. Mas eles estão claramente se agrupando, organizando, esperando alguma coisa.

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"Esperando há horas. Cansada, enojada. O cheiro ruim de gente, desta gente que não toma banho. Que quer entrar no meu país e tomar o meu emprego. Sempre a mesma coisa: promessas, promessas, promessas: os nazistas, os soviéticos, os capitalistas. Já tivemos decepções o suficiente. Primavera de Praga! União Europeia! Saímos da União Soviética, mas entrar na economia de mercado não nos trouxe nada. As promessas de prosperidade não foram cumpridas. Nos prometeram turistas, agora nos mandam refugiados."

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Ser jornalista, para mim, é uma identidade. Nunca imaginei que eu pudesse ser outra coisa, desde o dia em que o vovô chegou em casa com a máquina de escrever de plástico. Eu guardo ela até hoje. As teclas tinham desenhos; tanto fazia, eu ainda estava anos distante de aprender a ler. Eu passava horas lá quieta, sentadinha, batendo os dedos nas teclas e contando histórias. Eu escrevia livros, contos, cartas? Não. Eu fazia reportagens.

O vovô entregou o presente, ajudou a abrir e foi para a copa tomar um café com a mamãe. Sempre que ele vinha em casa tinha um bolo Pullman, que eu adorava porque podia ficar com a faquinha de plástico que vinha junto na embalagem. Ele e a mamãe ficaram lá, conversando em voz baixa - tinha tardes em que eles riam alto, outras em que cochichavam, sérios, e até uma que prefiro nem lembrar em que gritaram um com o outro e depois mamãe passou horas deitada na cama, chorando. 

Bom, neste dia o vovô e ela ficaram lá na copa, mas eu não lembro se foi um dos dias agradáveis ou não. Imagino que eles ficaram dando risada, gargalhando alto - certamente fofocando sobre a vida alheia - pois a parte que eu lembro é de ele chegando no maior bom humor e me perguntando o que eu estava escrevendo. Quando eu disse que era jornalista e estava escrevendo uma história, ele me perguntou sobre o que era. Eu eu gaguejei! Lembro até hoje de uma sensação de vergonha, de saber o que se quer fazer mas não conseguir explicar muito bem o que é que isto significa.

Ele sentou do meu lado com toda a calma e perguntou:

- Quer que o teu vovô te conte uma história?

Eu disse: - claro! e ele começou a contar a história da vida dele. 

Meu avô havia estudado, o que era bastante raro - mais tarde, proibido. Estudou algo como contabilidade, acho, me contaram que era economia mas imagino algo mais técnico, como um guarda-livros. Enfim, ele foi trabalhar como gerente em um banco em Berlim. Pacificista, demorou ao máximo para se alistar na Primeira Guerra. Ao retornar foi demitido e, de volta à Varsóvia, encontrou um cenário de dificuldades. Sem emprego, sem espaço. A família tinha dinheiro e vivia relativamente bem, considerando o fato de serem judeus na Polônia. Ninguém poderia, nos piores pesadelos, imaginar o horror que se avizinhava. Mas de alguma forma a Segunda Guerra se avolumava, ocupando o imaginário. Sinais sutis deixavam entrever a exclusão que se aproximava, fosse em um olhar inesperado de alguém que se conhecia de vista e até outro dia sorria, até cumprimentava, e de súbito olhava com rancor como se estivessem roubando algo dele. Escárnio, desprezo, mágoas injustificadas. Apesar de incompreensível, a crescente má vontade era palpável. O incômodo ia num crescendo e as oportunidades eram cada vez mais improváveis. 

Os homens, todos à procura de emprego, faziam o que sempre fazem nesta situação ao longo da história: conversavam. Tinham ideias, trocavam impressões, parados à frente de um bar ou em uma esquina qualquer. 
- Ele se foi. Pagou (uma determina quantia, pequena a princípio e, conforme chegavam relatos de chegadas mais ou menos bem sucedidas, os valores aumentavam) para o dono do navio. 

- Dizem que lá tem de tudo: lugar para morar, comida à vontade.
- As pessoas são gentis, não se importam de ensinar a falar o idioma de lá.
- Mas esta língua que eles falam lá é muito enrolada! Impossível aprender!
- Eu, por mim, acredito que aqui sempre estaremos mais seguros. 
- Claro! Antes de ser judeu eu sou alemão. Vocês, poloneses, aqui sempre foi tudo bem pior.
- Mas tem que ser muito mishigne (maluco, louco, em iídiche- idioma dos judeus ocidentais que mistura alemão, polonês e russo) para largar tudo e pegar um navio para o desconhecido. 

Uma destas famílias que se indignavam com o pessimismo era a da minha tia avó. A irmã do meu avô havia se casado com o judeu mais rico da Polônia, e viviam em um verdadeiro palacete. Tão belo que, assim que os nazistas chegaram, foi imediatamente confiscado como sede da Gestapo e a família que lá vivia foi enviada para um campo de concentração. Este ramo da minha família foi extinto.

Alguns anos antes disso, uma destas conversas com os outros homens mudou alguma coisa na cabeça do meu avô. Terá sido a desesperança em ficar na terra natal, ou ao contrário a esperança em um futuro melhor? Seja como for, um sentimento ou o contrário dele, o fato é que um dia ele se encheu de coragem e partiu para uma terra desconhecida. 

Os cunhados e sogros já haviam partido. Minha avó tinha oito irmãos: o tio Ben e sete irmãs. Todos foram para onde, na verdade, todos queriam ir: Nova York. Meus avós tinham dois problemas em ir com o resto da família. O primeiro, burocrático, pois minha avó já estava casada e portanto tinha outro sobrenome. O segundo, eu não sei avaliar qual o peso real, se tratava de um escândalo. Para os judeus o noivado é ainda mais sério do que o casamento, é um compromisso de palavra, que não deve jamais ser desfeito. E o meu avô Yicek estava noivo de uma das irmãs da minha avó, quando se apaixonou por esta e trocou de noiva. Não é difícil imaginar que este assunto era um tabu na minha família e, embora não fosse um segredo, também não era assunto para a mesa de refeições. Seja como for, o Brasil estava começando a receber uma cota de imigrantes judeus, e algumas histórias de quem havia partido eram bastante otimistas.

Ao contar histórias do passado, longos períodos de sofrimento podem virar uma frase como "foi muito difícil"; sonhos abandonados, "tivemos que desistir"; travessias bem sucedidas, "aí então, chegamos". Sei que minha avó ficou na Polônia com a sogra, que era rica e arrogante. Nas palavras de vovó, a aventura transmarina de meu avô era pouco comparado ao imenso sacrifício de morar na casa de uma sogra que fazia insuperáveis distinções de classe e criticava a nora dia e noite. Ao contrário da filha sofisticada, com seus filhos maravilhosos, o filho - meu avô - havia escolhido uma qualquer, e então feito o pior, trocado de noivas dentro da mesma família simplória e escolhido a minha avó. Lá ficou ela, com as duas crianças, minha tia Salomea (mais tarde, no Brasil, adotou o nome Sarita) e o recém-nascido Marek.  

Uma manhã, estavam no parque da cidade. Que, acredito, deve ser lindo, pois todos dizem que Varsóvia é uma linda cidade. Jamais saberei, pois minha avó me fez jurar, no leito de morte, que eu nunca poria os meus pés lá. (Por outro lado, meu avô dizia que ao acordar no Brasil a gente devia ajoelhar e beijar o chão, todos os dias.) Enfim, minha avó dava uma maça para a pequena Salomea enquanto o nenê Marek descansava em seu carrinho. Quando virou-se novamente, o carrinho havia sumido! Uma mulher sozinha - judia, ainda por cima - marido distante, pais e irmãos também distantes; todos em que confia estão em outro continente! E seu nenê sumiu. A ida à delegacia foi constrangedora, além de praticamente inútil. Quem liga para um judeuzinho desaparecido? Foi só nas primeiras horas da manhã seguinte que moradores, incomodados com um choro insistente que vinha de um porão, acionaram a polizei. Em algumas noites da minha infância, eu pensava naquele bebezinho chorando em um porão. Ironicamente, o nenê que foi salvo pelo som do próprio choro permaneceu mudo por anos. Ele, meu tio Marek, só foi superar o trauma do sequestro e começar a falar depois dos sete anos de idade. 

Como eu dizia antes de me perder na história, este lance de conforto significa o seguinte: estou tão acostumada com as minhas coisas certinhas, em casa, que quando falta água, ou luz, sei lá, parece uma catástrofe. Mas meus avós vieram para o Brasil em condições precárias! E estes imigrantes que vejo hoje, cumprindo o meu dever de jornalista de guerra, também tinham casas, água, luz, telefone. Dá até uma vergonha lembrar de um dia em que fiquei sem wifi e foi como se o fim do mundo estivesse chegando. Sendo que meu celular tem internet também, claro, eu só não queria ter que passar os arquivos de uma máquina para a outra.

Estou incomodada, os mosquitos zumbindo perto do meu ouvido, minhas galochas pesadas de lama. Daí olho para o outro lado da cerca - que na verdade é como uma cerca imaginária, pois é possível desviar dos pedaços de arame e das estacas e vir andando, embora eu não saiba o que aconteceria se alguém ousasse fazer isto - o que acontecerá - e, do outro lado da cerca, tem gente que morava em casas, ia aos colégios, aos cinemas, eu sei disso muito bem pois li inúmeros documentos antes de sair da minha casa confortável para cobrir a zona conflagrada, e estas pessoas estão dormindo em barracas, no meio da lama, há dias! Vejo muitos homens, claro, mas também famílias, gente com cara de normal; digo, pessoas quaisquer, comuns, não necessariamente gente que já nasceu despossuída e está acostumada a passar desconforto…meu Deus, o que estou dizendo, eu sei muito bem que somos todos iguais e merecemos uma vida sem sofrimentos, todos nós! É só que este clima,este calor, este zumbido…esta tensão - me deixam confusa.

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Como a grande maioria dos meninos de sete anos, o sonho de Zaid é ser jogador de futebol. Não parece nada de tão improvável, afinal o pai foi técnico de futebol em Aleppo, jogou e chefiou o Al-Fotuwa, time campeão da primeira divisão na Síria. A família saiu de lá e foi viver na Turquia em 2012, mas as coisas teimavam em não melhorar e o filho mis velho fez a travessia rumo à Alemanha. Osama, então, planejou uma estratégia cuidadosa: iria com o filho caçula até Bodrum, onde pagaria 800 libras por um lugar no bote inflável até a Ilha de Kos. Levar o caçula seria duplamente vantajoso: ele poderia viajar no colo, sem pagar; e iria sensibilizar as autoridades da fronteira. Uma vez lá, ele, o mais velho e o caçula, seria mais fácil levar a mulher e as outras crianças.

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"Pequenos nojentos. Gente suja. Árabes, ciganos, judeus. Não me venham com esta bobagem de 'déficit de compaixão nos países do Leste Europeu'! Estamos todos  perfeitamente confortáveis com nossas ideias; meu vizinho, meu chefe e colegas no trabalho, minha família; meus conhecidos; o padeiro; o açougueiro. Até mesmo o primeiro-ministro Orbán proibiu as imagens de crianças refugiadas na TV. Todos pensamos exatamente a mesma coisa: não queremos estes imigrantes sujos aqui entre nós."

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Parada aqui de pé, neste campo de refugiados - nossa, estou tão cansada, quase falei campo de concentração - percebo que acabei me distraindo e não contei ainda a história do tio Mikael. Então, olha só, ele era louro, pequeno, olhos azuis. O meu modelo, enfim, imagina eu só que menino. Quando os judeus foram confinados em um só bairro, no chamado Gueto de Varsóvia, ele não precisou sequer sair de casa. A família dele morava lá mesmo, em uma casa que ficava bem no centro do bairro. Só o que mudou é que um monte de gente se mudou para lá, e a casa que era pequena ficou super apertada. Bom, como dizem, onde dorme um dormem três. Só que no caso da comida, óbvio, isto não é verdade. Além do mais a ração de comida foi reduzida em muito, e o número de comensais só aumentou.

Alguém tinha um contato de uma polonesa bondosa, destas personagens que somem na história misturadas a tantos outros tipos: os bons, os ruins, os péssimos. Uma tremenda injustiça pois o mundo é melhor, ou menos ruim, graças a tipos como eta senhora. Meu tio Mikael saia do gueto por baixo, isto é, rastejando pelos túneis de esgoto. Parece um caminho como qualquer outro, assim falando, mas não é: sabe a diferença entre andar na rua olhando a paisagem, ou de metrô, embaixo da terra? O metrô é limpo, rápido, civilizado; mas, se você reparar bem, chega uma hora que dá um certo baixo-astral pois não é natural. A gente não nasceu para andar sob a terra, a luz é artificial, o ar também…quem nunca passou pela aflição de ficar preso em um vagão do metrô com pânico de sufocar e medo de entrar em pânico? Agora, imagine que a tubulação do esgoto tem…está lotada de…bem, você entendeu.

Mas há que se reconhecer que era uma sorte, e não azar. Pois ao menos ele tinha esta alternativa, abria a tampa do bueiro ao lado de sua casa e andava, andava, andava, e saía nas proximidades de uma outra casa, dentro da qual havia uma trouxa à sua espera: batatas, repolho, nada de delicioso mas mesmo assim era a salvação da família inteira. E, quero crer (ainda que seja apenas a minha fantasia) que lá ele era recebido com carinho. E quem sabe, algum mimo: um chá, mesmo que ralo, de cevada, aguado mas quentinho; uma fina fatia de pão que ele tentava comer com educação; sem sucesso, é claro, devia estar sempre esfaimado.

Vi um filme, um documentário produzido pelos nazistas para mostrar ao mundo como a vida no gueto era ótima. O cinegrafista (sim, seu colega, amigo, sempre vocês filmadores tão brincalhões) filmava tudo, o material bruto na minha sincera opinião tinha muito mais coisa do que seria necessário. Enfim, ele mostrava a parte que claramente iria fazer parte do filme final produzido: lindas senhoras até meio gordas, bem maquiadas, com seus casacos de pele e alguma joia, entrando em um prédio de apartamentos onde iriam jogar carteado. Sim, diga-se de passagem: jogar cartas é um hábito muito judeu! Todos da minha família adoram jogar, menos eu. Mas eu também cresci jogando, depois foi que este hábito de contar histórias tomou conta de mim e… bem, voltando.
As pessoas entravam no prédio uma vez e outra, as mesmas senhoras cheinhas e os homens de terno, e lá pelas tantas você percebe que as cenas eram montadas, isto é, faziam parte de uma filmagem. E que era tudo muito falso, quando não sabiam que estavam sendo filmados as pessoas faziam caras horríveis, esgares de profundo sofrimento. Enfim, antes de terminar as filmagens, ou ao menos a edição, o gueto caiu. O nome é o contrário, né, houve o Levante do Gueto. Que sugestivo, o nome ser o contrário. Enfim, o comandante assistiu o material bruto da filmagem e horrorizado, suicidou-se, dá para acreditar?

Havia uma cena neste filme que me fez ficar super arrependida de ter assistido, aliás entrei sem querer neste filme. Uma pessoa está andando e eu percebi, horrorizada, que também era o meu modelo. Digo, poderia ser eu em outra época, ou mais corretamente poderia ser um parente meu - talvez fosse. O filme que assisti era na verdade um documentário, que mostrava estas filmagens e também entrevistava uns poucos velhinhos ainda sobreviventes - e eles choravam e se recusavam a assistir com pavor de ver algum conhecido: "e se mostrar a minha mãe, ou o meu irmãozinho que morreu no gueto?". Mas a cena que me marcou foi essa: uma pessoa do meu tamanho, cor e tipo físico - só que extremamente magra - está andando na rua. Ela para. Cai. Está morta. Morreu de fraqueza, fome, frio. Não tem mais forças para andar, e deitar no chão, na rua, é mostrar que entendeu que está morrendo, que é questão de minutos. Desistiu - a doce e dolorosa opção de desistir. Ninguém a tira de lá. Este é o pior: ninguém tem forças, e de qualquer modo não vale o esforço. 
Há um carrinho, destes de recolher lixo reciclável. Alguns moradores do gueto passam, de vez em quando. Jogam o corpo desta pessoa que se parecia comigo dentro do carrinho, e continuam andando. Mais para a frente esvaziam o conteúdo do carrinho em um local destinado a isto, uma esquina reservada para os restos do caminho. 

Sim, obrigada, só um pouquinho. Desculpe, fiquei emocionada. 

Mas, continuando. Meu tio Mikael um dia voltou para casa só que, ao chegar, não havia mais casa. E nem bairro, vizinhos, nada, só barricada e fogo. Sua mamãe, papai, irmãos, tudo e todos que conheciam estavam lá dentro. Ele deu meia volta com seu farnel de comida e agasalhos e saiu andando. Andou dias e noites sem parar, atravessou fronteiras. Andou até a Itália, juro. Ao sentir o cheiro de queijos provolone pendurados para secar, aquela gordura rica pingando e penetrando o ar, desmaiou.

A família de fazendeiros poderia facilmente ter chamado a Gestapo e indicado o paradeiro do judeu fugitivo. Digamos que havia 50% de chance da história terminar assim: tio Mikael é levado para um campo de concentração, encontra ou não algum membro remanescente da própria família, morre ou é libertado e tem que atravessar caminhos de neve a pé. Mas, não. Ele foi acolhido e cuidado; após o final da guerra foi para Israel, onde virou herói com direito à estátua em praça pública.

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Osama leva pelas mãos o filho Zaid, vai deixar para levantar no colo quando chegar mais perto. Esta é a estratégia: ele, que já levantou troféus em competições de futebol, está hoje levando o seu salvo conduto, capaz de salvar toda a família. É um jogo, afinal: a meta é cruzar a linha de campo (Röszke, fronteira da Hungria com a Sérvia); o gol é encontrar Mohammed, na Alemanha; vencer o jogo será reunir a família e iniciar uma nova vida. Vida interrompida quando o Estado Islâmico o puniu por ser simpático à revolução síria e mandou um recado doloroso: um de seus filhos foi baleado na frente de casa - na perna. 

Agora começa a partida: ele pega o filho no colo e sai correndo. 
Mas não houve um chute; houve, sim, uma falta grave. Alguém estendeu o pé! A dupla cai, vai ao chão. 

***

O mundo inteiro assiste perplexo o vídeo daquela mãe solteira passando uma rasteira. A imagem que fica é do pai olhando, assombrado, a mulher que o derrubou. 

Ela, a bruxa Magiar, lamenta em casa a perda do emprego. "Eu queria uma boa imagem, só isso." 

Petra e seu coração de pedra assistem TV em casa. Na tela, Cristiano Ronaldo entra em campo para jogar pelo Real Madrid levando o pequeno Zaid pelas mãos. Ele o pai logo estarão em Munique.

Esta imagem emocionante seria suplantada, em poucos dias, pela de um menino dormindo o seu sono infantil, eterno, na beira do mar.







Só Mais Uma Chance


Entrei na loja de produtos naturais e imediatamente começou a chover. Em poucos minutos a água já invadia a área próxima à porta e uma sensação de frio, pinicante, fustigava as minhas pernas nuas. Um vento gelado e úmido entrava por sob o casaco leve. Toda as vezes em que chove, meu telefone toca. É sempre ele, o rapaz que me socorre nas situações mais concretas e nas mais sutis, pronto a pegar o cavalo - aliás, o carro - e me salvar, me buscar onde eu estiver. 
Mas, desta vez, ele estava chorando. Coisa que fez raramente, ou nunca, nos últimos dez anos. 
- Mãe, o Prates morreu.
- Meu Deus!
- Ele tinha pedido para ser internado, estava se drogando demais e não conseguia parar sozinho. 
- Meu Deus!
- Acabei de saber que ele se matou. Onde você está? Posso ir te encontrar?
Na loja de produtos naturais eu soluçava; perdi a compostura completamente, e só chorava baixinho (ou nem tanto: sorvia o ar e lá dentro sentia ele se misturar com algo quente; o horror). O Prates, que eu conhecia desde menino. Que eu buscava e levava em casa, com sua cara cheia e sorridente, sua imensa gentileza, sua morenice, sua alegria. A mãe do Prates! - o horror. 
Em dez minutos estávamos juntos, eu e meu filho vivo, saudável, com todo o seu (nosso) futuro pela frente: filhos (netos), felicidade, tristezas e amigos que se perdem pelo caminho. Mesmo tendo pedido socorro desesperadamente, mesmo podendo contar com a ajuda dos pais - a mãe! Que horror! E ele me diz, à mãe que estava tentando se conter e parar de chorar para acolher o sofrimento do filho, que o Prates se enforcou. Que a mãe do Prates encontrou o seu filho que estava vivo até poucos minutos antes, que tinha talvez um futuro pela frente - aquela mãe encontrou seu filho com o pescoço partido (não o coração, como sei que infelizmente meu filho ainda terá mais de uma vez) - não o coração, mas o pescoço partido. Desabei, é claro, e ele teve que parar o carro para chorarmos abraçados. 
Um peso, enorme, no peito. Deitada na cama, olhando para o teto e não olhando (procurando não olhar) o lustre, o alto do armário - superfícies onde uma corda poderia ser amarrada, uma vida encerrada, tendo ou não todo um futuro à frente. A mãe do Prates, o horror. De novo, toca meu telefone e de novo, como sempre, é ele, meu filho amado. Aquela existência mais valorizada do que nunca. 
- Mãe, você não vai acreditar. Não era o Prates. Quer dizer, era outro Lucas Prates. Um cara com o mesmo nome, idêntico. E com o mesmo vício, também. Os amigos dele colocaram no Facebook que ele saiu da clínica de recuperação e se enforcou no dia seguinte. Acabei de telefonar para o 'meu' Prates e conversei com ele, está internado mas vai sair semana que vem.
Senti um alívio tão grande que demorei vários minutos para lembrar que o outro Prates também era um garoto, que tentou amenizar a dor nas drogas, e que certamente também tinha uma mãe. Horror. 

Este dia terrível aconteceu há uns dois anos. Ontem, o Lucas Prates passou na casa do meu filho, foram a uma balada - mas ele não bebe. Só vive, aos trancos e barrancos como todo mundo. Sua face redonda e morena permanece igual, talvez haja um brilho de medo no fundo do olhar. Mas quem não tem?