segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Só Mais Uma Chance


Entrei na loja de produtos naturais e imediatamente começou a chover. Em poucos minutos a água já invadia a área próxima à porta e uma sensação de frio, pinicante, fustigava as minhas pernas nuas. Um vento gelado e úmido entrava por sob o casaco leve. Toda as vezes em que chove, meu telefone toca. É sempre ele, o rapaz que me socorre nas situações mais concretas e nas mais sutis, pronto a pegar o cavalo - aliás, o carro - e me salvar, me buscar onde eu estiver. 
Mas, desta vez, ele estava chorando. Coisa que fez raramente, ou nunca, nos últimos dez anos. 
- Mãe, o Prates morreu.
- Meu Deus!
- Ele tinha pedido para ser internado, estava se drogando demais e não conseguia parar sozinho. 
- Meu Deus!
- Acabei de saber que ele se matou. Onde você está? Posso ir te encontrar?
Na loja de produtos naturais eu soluçava; perdi a compostura completamente, e só chorava baixinho (ou nem tanto: sorvia o ar e lá dentro sentia ele se misturar com algo quente; o horror). O Prates, que eu conhecia desde menino. Que eu buscava e levava em casa, com sua cara cheia e sorridente, sua imensa gentileza, sua morenice, sua alegria. A mãe do Prates! - o horror. 
Em dez minutos estávamos juntos, eu e meu filho vivo, saudável, com todo o seu (nosso) futuro pela frente: filhos (netos), felicidade, tristezas e amigos que se perdem pelo caminho. Mesmo tendo pedido socorro desesperadamente, mesmo podendo contar com a ajuda dos pais - a mãe! Que horror! E ele me diz, à mãe que estava tentando se conter e parar de chorar para acolher o sofrimento do filho, que o Prates se enforcou. Que a mãe do Prates encontrou o seu filho que estava vivo até poucos minutos antes, que tinha talvez um futuro pela frente - aquela mãe encontrou seu filho com o pescoço partido (não o coração, como sei que infelizmente meu filho ainda terá mais de uma vez) - não o coração, mas o pescoço partido. Desabei, é claro, e ele teve que parar o carro para chorarmos abraçados. 
Um peso, enorme, no peito. Deitada na cama, olhando para o teto e não olhando (procurando não olhar) o lustre, o alto do armário - superfícies onde uma corda poderia ser amarrada, uma vida encerrada, tendo ou não todo um futuro à frente. A mãe do Prates, o horror. De novo, toca meu telefone e de novo, como sempre, é ele, meu filho amado. Aquela existência mais valorizada do que nunca. 
- Mãe, você não vai acreditar. Não era o Prates. Quer dizer, era outro Lucas Prates. Um cara com o mesmo nome, idêntico. E com o mesmo vício, também. Os amigos dele colocaram no Facebook que ele saiu da clínica de recuperação e se enforcou no dia seguinte. Acabei de telefonar para o 'meu' Prates e conversei com ele, está internado mas vai sair semana que vem.
Senti um alívio tão grande que demorei vários minutos para lembrar que o outro Prates também era um garoto, que tentou amenizar a dor nas drogas, e que certamente também tinha uma mãe. Horror. 

Este dia terrível aconteceu há uns dois anos. Ontem, o Lucas Prates passou na casa do meu filho, foram a uma balada - mas ele não bebe. Só vive, aos trancos e barrancos como todo mundo. Sua face redonda e morena permanece igual, talvez haja um brilho de medo no fundo do olhar. Mas quem não tem?

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