sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Vivendo um David Lynch
2012 começou de forma cinematográfica, o que não necessariamente é bom.
A São Silvestre foi um sucesso: corri super gostoso, adorei o novo percurso. Fiz a prova inteira sob chuva, e depois ainda caminhei até em casa naquele aguaceiro. Assisti os fogos de artifício, festejei, fui dormir feliz.
Acordei cedo e animada no dia primeiro, vesti o short e calcei os tênis para dar uma esticada rapidinha nas pernas e começar bem o ano novo. Andei em direção ao parque, e acordei horas depois em uma maca no Hospital São Paulo, com uma contusão cerebral e uma pulseira onde se lia 'desconhecida'.
Neste intervalo, só uma sensação de pesadelo, algo como um túnel escuro se fechando, uma sensação de horror e de pânico. Mas, vai saber, pode ser apenas imaginação, cena de filme do David Lynch. Provavelmente nunca vou saber o que aconteceu. O médico acha que levei uma paulada na lateral da cabeça, pois ninguém correndo cai para trás. E a contusão foi muito forte para ter sido uma queda da minha pouca altura. O relógio com GPS, caro e novo, desapareceu do pulso. E o olho tem uma mancha roxa como um soco desenhado.
A memória felizmente não foi afetada, e consegui lembrar o telefone do ex-marido. A enfermeira ainda se espantou, mas eu garanti: 'é amigo'. Lembrei até do número que um senhor, quando fui pegar o kit da São Silvestre, na quarta, pediu para eu ler no celular dele: sei o nome do rapaz, o telefone completo, tudo. Mas não sei o que aconteceu comigo no primeiro dia do ano.
Minha cabeça dói barbaridades, e assim deve continuar por uns três meses, nos quais a minha rotina, bem como a audição, estarão severamente prejudicadas. Mas eu não morri! O que me resta é tentar enxergar o lado bom, embora claramente o esperado era dar uma trotadinha, voltar para casa, ler e escrever durante o resto do dia e só.
Eu não fiquei cega, surda, não perdi a memória ou o olfato. Eu recebi doses massivas de carinho e atenção dos meus dois irmãos, além de uma ajuda mais específica. Para quem não tem mais os pais vivos, a fraqueza dói mais fundo: fiquei arrasada por não ter minha mãe alimentando e meu pai cuidando, mas meu irmão e minha irmã cuidaram de mim como se eu fosse a caçulinha, e na verdade isto é um grande presente para mim. O filho é sempre um príncipe, e até a segunda mulher do ex-marido foi acolhedora. Além de amigos, os esperados e insuspeitos.
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